Ainda não sabemos se gays são bem-aceitos no vôlei, diz destaque da seleção

Douglas Souza, jogador de vôlei da seleção brasileira e do EMS Taubaté Funvic, no ginásio do Clube Abaeté – Rafael Hupsel/Folhapress

De “novinho” da seleção brasileira a melhor atacante do Campeonato Mundial. Douglas Souza, 23, viu sua carreira como jogador de vôlei mudar de patamar durante o torneio disputado em setembro, quando o Brasil ficou com o vice-campeonato.

O ponteiro era coadjuvante do time campeão olímpico em 2016. Dois anos depois, assumiu protagonismo com a ausência dos colegas de posição Lucarelli e Maurício Borges, em recuperação após cirurgias. As lesões fizeram a seleção chegar desacreditada ao Mundial. Se saiu dele com a medalha de prata, um dos responsáveis foi Douglas Souza.

Douglas se considera referência para jovens atletas, por ter chegado cedo à seleção, mas também para a população LGBT. Ele diz nunca ter escondido sua orientação sexual nem sofrido preconceito no meio do vôlei por ser gay, mas relata ter ficado impactado com um episódio de homofobia no esporte em 2011.
Na ocasião, o jogador Michael, do Vôlei Futuro, foi hostilizado pela torcida do Cruzeiro durante jogo da Superliga.

Para Douglas, apesar de não ter passado por situação semelhante, ainda não é possível dizer que há aceitação plena da homossexualidade no ambiente esportivo do país.

“A gente só vai saber quando aparecer mais. Com certeza está melhor, mas não sei como vai ser no futuro”, diz.

O atleta também comenta polêmica surgida no Mundial, após o oposto Wallace e o central Maurício Souza posarem numa foto fazendo o número 17 com as mãos, referência ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).

Recém-chegado ao EMS Taubaté Funvic, Douglas compõe um dos elencos favoritos ao título da Superliga.

Após vencer o Paulista, o Taubaté parte como grande favorito na Superliga? Grande favorito, talvez não. Além da gente tem Sesc-RJ, Sesi-SP e Cruzeiro, três equipes muito fortes. Não sabemos como o Cruzeiro reagirá após tantas mudanças no time [perdeu os cubanos Leal e Simon e trouxe o americano Taylor Sander e o francês Le Roux]. Acho que somos um dos quatro favoritos ao título.

Ter sido escolhido para a seleção do último Mundial o coloca num outro patamar? Eu fui sendo o novinho do time, de quem ninguém esperava muita coisa e que acabou se destacando como melhor atacante do campeonato. Agora as pessoas me veem diferente, esperam muito de mim. Isso é legal, de certa forma pressiona, mas a gente está acostumado a viver com pressão.

A seleção chegou ao Mundial sob desconfiança. Houve uma reversão de expectativas? Tivemos aquela vitória contra a França [pela primeira fase, no tiebreak] que já mudou a cara do time. O grupo vai ganhando confiança. Depois da Liga das Nações [encerrada em julho], precisávamos de tempo de treino. Tivemos dois meses, e realmente treinamos muito. A gente treinou igual a uns cavalos. Era importante para o grupo ter confiança.

Douglas tenta passar pelo bloqueio da França em jogo pelo Mundial de vôlei – FIVB/Divulgação

Você se surpreendeu com seu desempenho? Não sei se “surpreendeu” é a palavra. Eu estava extremamente concentrado. Saía do jogo e ia estudar o próximo [rival], ficava olhando nossos números no scout, sempre ligado. Mal entrava no Instagram, só postava resultados dos jogos e pegava o celular para me comunicar com parentes. Então realmente estava muito focado e não estava esperando menos.

A disputa pela titularidade na posição deve ficar acirrada, com a volta dos lesionados e a possível convocação do cubano naturalizado brasileiro Leal [liberado para defender o país a partir de 2019]. Como lida com a concorrência? Esse negócio de o Leal poder ser convocado é bom. Quem não quer ter o Leal em forma no seu time? Acho que nos ajuda bastante. Mas a função dele e do Lucarelli é totalmente diferente da minha. Faço uma função mais de volume de jogo, ponteiro mais completo. Vai ser uma disputa boa, mas cada um tem a sua função.

Acredita que pode haver resistência à convocação do Leal? Entre os atletas tenho certeza que não. A gente jamais deixou alguém de lado. Se estiver apto, por que não?

Houve polêmica no Mundial após atletas demonstrarem apoio a Jair Bolsonaro em uma foto, que você também publicou. Alguns seguidores seus cobraram um posicionamento. Como você lidou com isso? Quando aconteceu eu estava fora das redes sociais. Muitos de nós não tínhamos visto o que eles tinham feito. Eu postei para avisar que tinha ganhado, depois pessoas me mandaram mensagem, minha família disse que estavam falando sobre isso. Fui no Twitter e disse que eu não tinha nada a ver, que não estava fazendo nenhuma campanha política. A situação do país está muito complicada, isso é um fato, mas o que importava para gente era o que estava acontecendo ali [no torneio].

Imagem postada no Instagram da CBV (posteriormente apagada), na qual os jogadores da seleção fizeram manifestação a favor de Jair Bolsonaro – Reprodução

Você ficou chateado com seus colegas? Não, até porque algumas coisas e de algumas pessoas a gente até espera. ‘Ah, Douglas, você não esperava?’ Esperava. Não esperava que fosse acontecer no meio da foto, que fosse fazer numerozinho. Mas que apoiava o candidato eu já sabia, a gente convive o dia inteiro. Chegou um ponto lá no Mundial que a gente não falava de outra coisa. Só falava de política, política, política, estava ficando já doentio. Eu achava estranho, mas OK. Para a gente, que tem uma intimidade muito grande, por conviver muito tempo junto, cada um coloca sua opinião do jeito que quiser, e tranquilo.

Você sente que pessoas o veem como referência do movimento LGBT no esporte? Com certeza, mas não só LGBT. Crianças e jovens jogadores me levam como exemplo por ter chegado à seleção muito novo. Quando tinha 17 anos não imaginava estar na próxima Olimpíada, e estive. Então não só a comunidade LGBT, mas novos atletas também me veem como espelho. Se o Douglas, que é um magrinho do interior, chegou lá, por que você não pode? Isso que eu tento pregar para todo mundo.

Como você lida com a sexualidade na carreira de atleta? Eu nunca me escondi para ninguém. Em todo clube com quem assinei, a diretoria sabia, os atletas sabiam. No meu dia a dia não muda absolutamente nada. Estou aqui a trabalho. Acho que vida pessoal e profissional são totalmente diferentes. Ninguém tem que saber da minha vida pessoal. Todo mundo respeita, é tranquilo. Não tem brincadeirinhas chatas, até hoje eu não vivi nada assim.

Em 2011 houve o episódio do Michael. O esporte brasileiro está menos preconceituoso? Eu lembro que fiquei impactado na época. Era [da categoria] infanto, na minha cabeça ainda ia demorar um pouco mais de tempo para estar no adulto. Mas cinco meses depois eu já estava, então não tem como não ficar marcado.

Não tenho certeza se o povo brasileiro está pronto para aceitar, mas até agora, nos lugares onde passei, todo mundo aceitou de boa, até porque não tem nem o que aceitar. Se eu estiver fazendo bem meu trabalho, pronto. Mas saber se já está todo mundo pronto, a gente só vai saber quando aparecer mais um, mais outro. Com certeza está melhor do que naquele período, mas não sei como vai ser no futuro. Enquanto tem só o Douglas se destacando, tudo bem. Mas e quando tiver mais três, quatro? A gente vai descobrir mais para frente. Eu acredito que tenham mais, mas às vezes você se sente reprimido.

Alguns dos maiores atletas mundiais se destacam também pelo ativismo. No futuro, você se vê na figura do atleta ativista? As coisas estão acontecendo muito rápido, mas ainda não acho que eu, Douglas Souza, tenho uma voz gigantesca para fazer uma grande diferença. No futuro pode ser que aconteça, eu até gostaria, mas tem um grande caminho a ser construído.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Folha de S.Paulo

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