Bahia faz futebol ir além do campo em resgate histórico de heroínas negras

Foto: divulgação Bahia

Neste domingo (4/11), o Bahia começou uma série de homenagens ao novembro negro, já que, no dia 20 deste mês, é comemorado o Dia da Consciência Negra.

Curiosamente, em Salvador – de acordo com o IBGE, a cidade mais negra do país, com cerca de 82% da população afrodescendente – a data não é feriado. Isso porque em 2003, quando a data foi incluída no calendário nacional, a capital baiana já tinha “estourado” os dias máximos de feriados no ano.

Alguns municípios do estado decretaram feriado. São eles Lauro de Freitas, Alagoinhas, Cruz das Almas, Camaçari e Serrinha. Mas, mesmo não sendo dia de “folga”, a data ainda é comemorada no restante da Bahia com marchas, eventos e homenagens. Ou seja, é um dia importante.

E o que isso tem a ver com o futebol? Muita coisa. O Bahia, time de maior torcida do estado, resolveu incorporar o dia da Consciência Negra no rol de datas comemorativas do ano (o time já tinha homenageado o dia do Índio, dia das mulheres e movimentos contra a homofobia, por exemplo). A primeira ação desse projeto veio neste domingo, quando os jogadores entraram em campo com nomes de heróis e heroínas da história dos negros no Brasil em suas camisas.

Nomes muitas vezes esquecidos até mesmo nas escolas, que falam muito pouco sobre a luta da população negra e a cultura africana na formação do país. Mulheres como Dandara, guerreira que lutou contra escravidão, ou de Maria Felipa, que liderou movimento contra a colonização e exploração dos portugueses no Brasil…e tantas outras que pouco são mencionadas nas aulas de História e foram resgatadas em bela homenagem do Bahia no futebol – que, nesse caso, foi muito além do campo.

O tricolor baiano já vem dando sinais de que queria se reaproximar do público negro e também resgatar a ideia de ser um clube popular. Desde 2014, o Bahia tem como mascote a Lindona do Bahêa (uma versão de mulher-maravilha negra) além do tradicional Super-Homem. Neste ano, o clube lançou uma nova categoria de sócio, “Bermuda e Camiseta”, com preços mais baixos para contemplar o público de renda mais baixa. Além disso, tem uma comissão de ações afirmativas que tratam de temas ligados a minorias sociais.

Pode parecer pouca coisa, mas essas ações trazem retorno financeiro ao clube (como os novos associados) e também de imagem positiva – como essa matéria, por exemplo. Com iniciativas como essas, os torcedores se identificam mais com o time e se sentem cada vez mais representados.

Novembro Negro:

Contra a Chapecoense, na Arena Fonte Nova, os jogadores do Bahia entraram com camisas especiais (camisas essas que já valem como item colecionável). Nas costas, em vez dos nomes dos atletas, tinham nomes de referências do movimento negro, com importância para a cultura local ou que marcaram a história do clube. Em campo, o tricolor baiano bateu por 1 a 0 a Chape com gol de Élber.

           Nas redes sociais, o Bahia mandou a seguinte “escalação”:

  – ZUMBI (1655-1695)
Conhecido como Zumbi dos Palmares, foi um dos pioneiros da resistência contra a escravidão e o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos do período colonial.

   – MILTON SANTOS (1926-2001)
Primeiro e único latino-americano a ganhar o “prêmio Nobel” da geografia mundial. Baiano, destacou-se pelos estudos sobre globalização e urbanização no Terceiro Mundo.

    – DANDARA (?-1694)
Guereira negra do período colonial do Brasil. Após ser presa, suicidou-se para não retornar à condição de escrava. Foi esposa de Zumbi, com quem teve três filhos.

   – MOA (1954-2018)

Considerado um dos maiores mestres de capoeira de Angola da Bahia, Moa do Katendê também foi fundador do bloco afoxé Badauê.

   – LUIZA BAIRROS (1953-2016)
Gaúcha radicada na Bahia, onde construiu seu histórico de militância negra. Doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan, foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

   – GANGA ZUMBA (1630-1678)
Primeiro líder do Quilombo dos Palmares e antecessor de seu sobrinho, Zumbi.

   – MARIA FELIPA (?-1873)
Marisqueira, pescadora e trabalhadora braçal, liderou um grupo de 200 pessoas, entre mulheres e índios, contra os portugueses que atacavam a Ilha de Itaparica, em 1822. É considerada uma das heroínas da luta da Independência da Bahia.

   – MÃE MENININHA (1894-1986)
Mais famosa ialorixá da Bahia e uma das mais admiradas mães-de-santo do Brasil. Foi responsável por abrir as portas do Terreiro do Gantois, em Salvador, aos brancos e católicos.

   – LUIS GAMA (1830-1882)
Baiano, é considerado o Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Conquistou judicialmente a própria liberdade e passou a atuar na advocacia em prol dos negros.

   – BATATINHA (1924-1997)
Um dos maiores nomes do samba da Bahia, foi homenageado por artistas como Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Maria Bethânia.

   – EDERALDO GENTIL (1947-2012)
Cantor e compositor da geração mais talentosa do samba baiano, ao lado de Batatinha. Foi gravado por nomes como Clara Nunes.

   – NEGUINHO DO SAMBA (1954-2009)
Músico baiano, criador do estilo samba-reggae e fundador do grupo Olodum e da banda Didá, ambos com sede no Pelourinho

   – MESTRE BIMBA (1900-1974)
Criador da Luta Regional Baiana, mais tarde chamada de capoeira regional. Foi o responsável por tirar a capoeira da marginalidade.

   – LUÍSA MAHIN (Séc. XIX)
Mãe de Luis Gama e africana radicada no Brasil, liderou as principais revoltas e levantes de escravos que sacudiram a Província da Bahia nas primeiras décadas do século XIX.

   – JONATAS CONCEIÇÃO (1952-2009)
Poeta e professor da UNEB, foi um dos fundadores do Movimento Negro Unificado na Bahia. Era diretor do bloco Ilê Aiyê, onde coordenava o projeto pedagógico.

   – TEODORO SAMPAIO (1855-1937)
Filho de escrava, foi um dos maiores pensadores brasileiros de seu tempo. Nascido na Bahia e engenheiro por profissão, escreveu obras de vasta erudição geográfica e histórica.

   – BIRIBA (1938-2006)
Um dos maiores ídolos da história tricolor, campeão brasileiro de 1959. Nascido no bairro de Itapuã, preferia jogar na ponta direita, mas aceitou mudar de lado para formar dupla infernal com Marito, outro expoente do Esquadrão.

   – CARLITO (1927-1980)
Maior artilheiro do Bahia em todos os tempos, com 253 gols em 13 anos de clube, de 1946 a 59. É também o maior goleada tricolor na história dos Ba-Vis, com 21 tentos marcados.

   – MANOEL QUERINO (1851-1923)
Fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes, foi pintor, escritor, abolicionista e pioneiro nos registros antropológicos e na valorização da cultura africana na Bahia.

   – EDISON CARNEIRO (1912-1972)
Escritor nascido em Salvador, foi também um dos maiores etnólogos brasileiros a estudar a cultura afro-brasileira. Jornalista, professor e folclorista, é autor da obra “Quilombo dos Palmares”.

Através da assessoria de imprensa, o Bahia informou que esta é “uma das primeiras ações sobre o ‘novembro negro’ que estão confirmadas para o decorrer deste mês”. O clube não adiantou outras ações, mas disse que outra “leva” de camisas especiais, homenageando negros que marcaram a história da Bahia, do Brasil e do clube, está prevista.

Procurado, o Vitória (outra equipe baiana na Série A) não informou se fará ações relacionadas ao Dia da Consciência.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: Dibradoras

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