Conheça a história de Nelson da Conceição, o goleiro dos ‘Camisas Negras’

Nelson da Conceição (foto reprodução)

Nelson da Conceição, goleiro do Vasco campeão em 1923 (foto reprodução)

Nelson da Conceição – (Goal Keeper) – Nasceu em 12 de agosto de 1899, em Nova Friburgo, Estado do Rio de Janeiro. (A Tribuna, 21 de agosto de 1923, p. 7.)

A Primeira República (1889-1930) caracterizou-se como um período da História em que uma pequena parcela da sociedade brasileira gozava dos direitos concebidos pelos princípios republicanos expostos em lei, enquanto a maior parte da população, especificamente se tratando da cidade do Rio de Janeiro, encontrava-se em estado de marginalização social e política. Os negros, assim como as mulheres e os brancos pobres, eram alijados de diversas formas na sociedade, fosse pelo racismo, pelo preconceito social ou de gênero, e até mesmo pela exclusão do direito ao voto. Todavia, daquela sociedade de “bestializados”, insurgia elementos que procuravam lutar contra aquela situação de submissão, tal como a Revolta da Chibata (1910), cujo grande expoente histórico a nível de sujeito foi o marinheiro negro João Cândido Felisberto. O negro era a principal vítima da ausência do Estado e da sociedade quanto à sua condição social. Para aquele contexto, o negro não era um cidadão completo, e sim um “quase-cidadão”, configurando o seu isolamento social.

Neste cenário, o futebol surge na antiga Capital Federal, de forma institucionalizada, no início do século XX, através de membros da elite carioca, descendentes de ingleses, que o trazem da Europa. Na segunda metade da década de 10, o futebol já era praticado por toda a cidade e experimentava diferentes formas, uma realidade para muitos clubes, inclusive para clubes surgidos inicialmente para o remo. O CR Boqueirão do Passeio (1897) e o CR Icaraí (1895) já praticavam o futebol.

A Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e, depois, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA) organizavam as competições futebolísticas, sendo comandadas pelos clubes da elite. Essas disputas tinham grande destaque nos jornais, atraindo a atenção maior do público, mas existiam outras ligas e formas distintas da prática do esporte bretão, tal como o futebol praticado por clubes de menor poder econômico ou prestígio social, as chamadas ligas suburbanas, que congregavam elevado contingente de jogadores negros e brancos pobres, indivíduos das classes sociais menos favorecidas.

A criação de um departamento de futebol no Vasco viria a se tornar realidade no final de 1915, sob a presidência de Raul da Silva Campos, após uma tentativa frustrada na presidência de Marcílio Telles, em 1911. Raul Campos era renomado comerciante, e um dos principais dirigentes destinados a fazerem do Vasco um grande no futebol. No ano seguinte, o clube, sob a nova presidência de Marcílio Telles e tendo como vice-presidente Raul Campos, ingressou na 3ª Divisão. Em 03 de maio de 1916 realizou a sua primeira partida oficial. A estreia não foi das mais promissoras. Uma derrota de 10 a 1 para o Paladino F.C., no campo do Botafogo F.C., na rua General Severiano. O primeiro e único gol vascaíno foi marcado por Adão Antônio Brandão, um dos muitos jogadores que vieram do Lusitânia Sporte Club, agremiação que, ao se fundir com o Vasco, viabilizou a criação do departamento de futebol cruzmaltino.

Os vascaínos não desistiram. Iniciar um novo esporte não é fácil, e o clube já havia passado por isso no remo. Todavia, conseguiu se tornar uma grande expoente no esporte náutico, com o futebol não haveria de ser diferente. Em 1917, o Vasco subiu para a 2ª Divisão, permanecendo nesta até 1922, quando ascendeu à 1ª Divisão da LMDT. Contudo, é a partir de 1919 que o Vasco começa a construir uma base forte para brigar pela ascensão rumo à divisão de elite do futebol carioca. Neste momento, Nelson e o Vasco se encontram. O clube dos portugueses foi atrás de novos “atores”, na intenção de promover melhores espetáculos. Nelson veio do Engenho de Dentro e outros jogadores negros e brancos pobres viriam de clubes do subúrbio carioca, para integrar a equipe de futebol que se sagraria campeã em 1923.

Nelson da Conceição nasceu em 12 de agosto de 1899 na cidade de Nova Friburgo, distante 126 km da cidade do Rio de Janeiro. Mudou-se para a então Capital Federal, onde começou a disputar partidas oficiais de futebol ainda muito jovem, com apenas 15 anos. Iniciou sua carreira futebolística em 1915, no Paladino Football Club, clube filiado à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, depois LMDT). Em 1916 já atuava pelo Engenho de Dentro Athletico Club, onde se tornou tricampeão da Liga Suburbana (1916-1917-1918), a maior de todas as ligas do subúrbio.

O jovem Nelson da Conceição chegou ao Club de Regatas Vasco da Gama com 19 anos. Sua estreia oficial se daria meses depois, já com 20 anos, no dia 07 de setembro, na vitória do Vasco por 2 a 0 sobre o Sport Club Rio de Janeiro. A partida era válida pelo returno do campeonato da 2ª Divisão da LMDT. A importância de Nelson para o Vasco fica evidenciada pela forma como entrou na equipe e com a análise da sua frequência nos jogos. Nelson veio para o Vasco diretamente para ocupar a vaga de goleiro titular. Uma “contratação” vital para as pretensões do clube.

Desde o seu antigo clube, Engenho de Dentro AC, e principalmente nos primeiros anos de Vasco, Nelson da Conceição sofria com considerações pejorativas relacionadas ao seu ofício de condutor de veículos (chauffeur) e sua fala coloquial, posições emitidas nos jornais e revistas. O termo chauffeur se referia à época aos condutores particulares de automóveis, o que hoje é denominado taxista. Esta função era marcada por ser designada a indivíduos de baixa escolaridade, o que se somava ao baixo poder aquisitivo e a predominância de pessoas negras. Os indivíduos de classe social menos abastada desempenhavam atividades caracterizadas por serem braçais e com baixo uso da intelectualidade. Dentre outras, podem ser citados: os operários das fábricas, mecânicos, pescadores etc.

No futebol amador carioca, teoricamente, o jogador deveria exercer uma função externa ao futebol, não sendo o esporte o seu meio de sustento. Todavia, os indivíduos que desempenhavam atividades consideradas menores sofriam preconceito pela classe dirigente da Liga e de parte da imprensa.

Em 1922 o Vasco ascende à elite do futebol carioca, disputando, no ano seguinte, pela primeira vez em sua história, a série A da 1ª Divisão. O ano de 1923 foi especial em todos os sentidos para Nelson, para o Vasco e para o futebol carioca. De uma só vez, Nelson se tornaria o primeiro goleiro negro a ser campeão carioca, a defender a seleção carioca e a seleção brasileira.

De uma forma clássica, a escalação era a seguinte: Nelson, Leitão e Mingote; Nicolino, Bolão e Arthur; Paschoal, Torterolli, Arlindo, Ceci e Negrito. Arlindo (Arlindo Pacheco); Arthur (Arthur Medeiros Ferreira); Bolão (Claudionor Corrêa); Cecy (Silvio Moreira); Leitão (Albanito Nascimento); Mingote (Domingos Passini); Negrito (Alípio Marins); Nelson (Nelson da Conceição); Nicolino (João Baptista Soares); Paschoal (Paschoal Silva Cinelli); Torterolli (Nicodemes Conceição).

Com uma campanha avassaladora, o Vasco de Nelson foi derrotando um a um os seus rivais, terminando o campeonato com 11 vitórias no total. No dia 12 de agosto de 1923, Nelson completaria 24 anos e ajudaria o Vasco a ganhar o título de campeão da cidade pela maior liga do Rio de Janeiro. Uma vitória por 3 a 2 sobre o São Christovão, em General Severiano, dando ao Vasco de Nelson o título de campeão. Nelson era reconhecido o melhor goleiro do futebol carioca. O rapaz negro de 24 anos, que nasceu em Nova Friburgo, e que se mudou com a família para o Rio de Janeiro em busca de melhoria de vida, encontrou no futebol o seu espaço de subsistência. Devido as suas condições técnicas, e não a sua cor de pele, teve o seu talento reconhecido e fez parte de uma equipe montada para levar o Club de Regatas Vasco da Gama ao mesmo patamar dos grandes clubes cariocas.

Nelson foi também convocado para a Seleção Carioca em 1923 e para a Seleção Brasileira, que disputa o Campeonato Sul-Americano do mesmo ano. A campanha do selecionado brasileiro foi pífia, mas o goleiro vascaíno foi um dos poucos que escaparam das críticas, sendo inclusive considerado como um dos que evitaram uma campanha ainda pior do que a realizada.

O grande keeper tornou-se ídolo de um clube que se tornava grande, o Club de Regatas Vasco da Gama. Nelson ajudou este clube a ser um dos grandes no futebol, com sua técnica e sua dedicação.

Walmer Peres Santana

Centro de Memória do Club de Regatas Vasco da Gama

Fonte: NetVasco

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