Entrevistas “O racismo no futebol brasileiro”​

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Quando era estudante terminando o Ensino Médio, minhas opções para o vestibular eram: Direito, Comunicação Social e História (mais Humanas que isso, impossível rss). Quis o destino que optasse pela primeira, mas, ouso dizer, que levo um pouco também das outras duas em mim.

Sou um grande admirador do poder das entrevistas em um livro, matéria ou artigo. Vejo que buscar respostas e explicações em personagens ligados ao assunto apresentado, permite ao leitor a visão de outro interlocutor, diferente do autor, podendo confirmar ou não aquilo que vem sendo exposto.

Para o meu próximo livro, busquei conversar com diferentes personagens do tema racismo no futebol brasileiro. E assim entrevistei: Paulão (atleta, vítima de racismo por duas vezes), Marcelo Carvalho (Diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol), Marcelo Jucá (Presidente do TJD-RJ do futebol), Paulo Schmitt (ex-Procurador Geral do STJD do futebol) e Higor Bellini (Diretor Jurídico do Palmeiras e ex-professor da Universidade Zumbi dos Palmares). Abaixo extraio alguns trechos das entrevistas, que estarão, na íntegra, no livro:

“Naquele momento eu disse ‘não acredito!’. Mesmo assim, você leva pros dois lados: ‘ele tá xingando o Paulão jogador’. Mas o Paulão jogador é o mesmo que o Paulo Marcos de Jesus Ribeiro. E as pessoas que estavam próximas dele [torcedor que o discriminou], o tiraram porque sabiam o que ele tinha falado” – Paulão, ao comentar o episódio de racismo sofrido num GreNal, válido pelo Gaúchão de 2014.

“Ouso dizer que estudar o futebol é estudar um pouco da história do nosso país, porque em diversos momentos o futebol foi utilizado para influenciar a população. E ele é um retrato fiel de nossa sociedade, onde reproduz a divisão das castas (classes sociais) e nos mostra que o local do negro é de subalterno, mão de obra barata. Temos muitos negros como jogadores, mas muito poucos dirigentes, treinadores, presidentes de clubes e jornalistas. O racismo institucional da sociedade se reproduz no futebol” – Marcelo Carvalho, falando sobre o tratamento dado ao mundo do futebol como algo “paralelo” e com as próprias “regras” por alguns.

“A conduta dela foi errada e reprovável, tanto que o time dela foi excluído da competição. No entanto, o que ela fez não justifica que coloquem fogo na casa dela. Um crime não justifica outro. Não se pode cometer um crime pra punir a quem tenha cometido outro. E a verdade é que o objetivo desses torcedores que incendiaram a casa dela foi a de puni-la pelo fato do Grêmio ter sido excluído da competição e não porque acham que o racismo é algo reprovável” – Marcelo Jucá, analisando o desenrolar dos fatos com a torcedora gremista no Caso Aranha de 2014.

“Negros e mulheres são raras exceções em tribunais desportivos ou posições de destaque ou autoridade decisória no desporto, e imagino até que em tribunais e instituições em geral, embora essa realidade venha se modificando ainda que lentamente nos últimos 5 a 10 anos. Mas o aumento da pobreza absoluta e das deficiências do sistema de ensino, abissal diferença em distribuição de renda, são fatores que devem trazer retrocesso nessa igualdade de oportunidade para as minorias, que na verdade são maiorias” – Paulo Schmitt, ao ser indagado sobre a pequena representatividade negra nos tribunais desportivos.

“O clube não está fora do ambiente social, mas sim incluído. Todos os clubes deveriam ter a preocupação em manter dentro de suas torcidas todos os segmentos de pessoas da sociedade, sejam negros, brancos, pardos, homens, mulheres, trans, héteros, homossexuais, etc. E, principalmente, o clube tem que mudar a sua torcida, para que esta mude a sociedade. Um clube tem que ser muito mais do que uma empresa. Porque vamos falar a real, os clubes não são entidades sem fins lucrativas, né?!. Assim eles têm o dever social de serem agentes transmutadores dessa cultura pra que eu entregue pra sociedade um ser humano melhor” – Higor Bellini, ao comentar a importância dos clubes em modificar a cultura discriminatória.

“O racismo no futebol brasileiro” tem lançamento marcado para 15/12, às 14h, no Multifoco Bistrô.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui

Fonte: Linkedin

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