Gritos homofóbicos pró-Bolsonaro geram medo em torcedoras LGBT

As eleições nacionais têm dividido o país. A polarização afetou a todos e tem sido comum vermos discussões e brigas nas redes sociais pró ou contra algum candidato. Nos estádios não tem sido diferente. Se o clima já não era dos melhores para mulheres e LGBT, agora ficou ainda pior.

Crédito: Divulgação Mineirão

O candidato que tem gerado polêmica é Jair Bolsonaro (PSL), mais bem votado no primeiro turno das eleições. Como Bolsonaro já fez declarações contrárias à classe LGBT, torcedores de Atlético-MG e Palmeiras criaram gritos em alusão a isso.

“O cruzeirense/são-paulino, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado”, foram os cânticos ouvidos no Mineirão, no último clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro. E também cantados no metrô, em São Paulo, em forma de provocação dos torcedores palmeirenses.

O blog “Dibradoras”, do UOL, entrevistou algumas torcedoras lésbicas, que sempre frequentaram o estádio, para falarem sobre o assunto. Ao serem perguntadas sobre como era ser lésbica em um estádio de futebol, a resposta foi unânime: “não dá pra ser”. Por medo, nenhuma delas já teve coragem de demonstrar carinho, beijar ou sequer andar de mãos dadas nas arquibancadas.

“Eu sou do interior de Minas, frequento os jogos, mas nunca demonstrei ser LGBT no estádio. Porque nunca me senti confortável ou segura para fazer isso. Nos últimos meses, não fui a jogo nenhum. Não me sinto segura. Se antes já era difícil, hoje está muito mais”, disse uma delas.

“Só em um jogo que estava muito frio eu e minha namorada nos abraçamos em determinado momento, mas ficamos atentas. Recebemos uns olhares diferentes, sempre tem os olhares”, contou outra.

Além do medo de discriminação, outro problema é enfrentado constantemente: o assédio. Em um ambiente majoritariamente masculino, é comum as mulheres serem assediadas durante as partidas.

“Já não é seguro para uma mulher ir a um jogo, eu já fui assediada em estádio com meu pai do meu lado. Então imagina para uma mulher lésbica na atual situação”, revelou a entrevistada.

“A gente já tem que aguentar falar pro goleiro que ele é ‘bicha’ na hora de reposição de bola. A gente tem que ficar aguentando termo pejorativo de torcedor para rival. Chamar de ‘maria’, de ‘franga’. Eu sou atleticana doente e, nesse último episódio do Galo, eu não consegui nem ver jogo direito depois. Porque machuca, machuca bastante”, completou.

A dor foi tamanha, que uma delas cogitou inclusive deixar de torcer para o Atlético e parar de assistir futebol. “Uma coisa que me deixava tão bem, tem me deixado tão mal. Sempre gostei do estádio, mas hoje tenho evitado”, contou.

O tema é tão tabu, que raramente vemos um posicionamento sobre por parte dos clubes ou da CBF. O último que se arriscou foi o América-MG e recebeu diversas críticas dos seus próprios torcedores. Além disso, é praticamente impossível um jogador se assumir homossexual.

“Acho que precisa haver uma conscientização por meio de campanhas por parte da CBF. E acho que os clubes precisam se unir, porque é um assunto que não pode ser banal, a gente tem que falar sobre isso. Assim como racismo já foi bem aceito e hoje não é mais”, pediu.

*Os nomes das entrevistadas não foram divulgadas para a segurança das mesmas.

Acesse e leia nossos “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 20142015 e 2016, com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.

Fonte: Torcedores

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