Porto Alegre, 3 de dezembro de 2010, homenagem ao nascimento do grande ídolo gaúcho

Osmar Fortes Barcelos era o nome deste gaúcho bom de bola que tinha o apelido de Tesourinha. Nasceu no dia 3 de dezembro de 1921, em Porto Alegre. Foi um dos jogadores gaúchos mais laureados da história do futebol brasileiro. Era um ponta direita extremamente hábil e técnico, que além de driblar com incrível facilidade e ainda chutava com precisão, o que lhe permitia ser mais do que um preparador de jogadas para ser também um artilheiro. Já foi eleito o melhor jogador do Internacional de Porto Alegre de todos os tempos.

Tesourinha driblava seus adversário em alta velocidade, cortando os zagueiros para um lado e para o outro. Viveu seus melhores momentos no Internacional como ídolo e campeão. O time era bom e Tesourinha se encaixava como uma luva. No futebol gaúcho ele era uma estrela. Mas, precisa conquistar o Brasil. Jogando pela seleção da sua terra, começou a mostrar seu futebol para os grandes centros esportivos.
Apelido
Nos anos 40 brilhou nos gramados do Brasil o atacante Osmar Fortes Barcelos, conhecido em todo o Brasil pelo nome de “Tesourinha”. Seu apelido veio de um bloco carnavalesco, chamado “Os Tesouras”, do qual ele fazia parte. Mas bem poderia ser uma referência à maneira como “cortava” os adversários, com seus dribles mágicos, em espaços muito reduzidos do campo, comparáveis somente aos dribles de Garrincha.
Aos que lhe perguntavam sobre a alcunha, costumava dar a mesma resposta bem-humorada: “Por causa de um bloco chamado Os Tesouras, que no final da década de 30 fez misérias na Cidade Baixa. Diziam que eu fazia misérias com os adversários, daí o apelido”.
Futebol amador
A carreira de jogador de futebol teve início no clube amador do Ferroviário da Ilhota, uma antiga vila de Porto Alegre, hoje Praça Garibaldi.
S.C. Internacional, 1939 a 1949
Quando chegou ao Internacional em 1939, vindo de uma família muito pobre e com um físico bastante franzino, a diretoria do clube autorizou uma padaria próxima ao estádio dos Eucaliptos, a lhe entregar todos os dias meio quilo de carne e dois litros de leite, para que melhor alimentado ganhasse massa muscular.
Com a seqüência de treinos começou a mostrar um grande talento, impressionando a todos pela habilidade e velocidade, virtudes que o acompanharam durante toda a vitoriosa carreira. Com o passar dos anos se tornou, ao lado do meia Falcão e do zagueiro Figueroa, talvez o maior jogador já surgido no Internacional. Formou ao lado de Adãozinho, Villalba e Carlitos o maior ataque da história do Inter. Ninguém brilhou mais do que ele naquele fabuloso time do Internacional, chamado de “Rolo Compressor”, que garantiu ao clube oito títulos estaduais em nove anos.
Tesourinha gostava de jogar como centroavante, mas teve de se contentar com a ponta-direita, devido à concorrência com Carlitos, um dos grandes jogadores da história do clube e maior artilheiro gaúcho de todos os tempos, com 485 gols. Seu jogo de estréia no Internacional foi pelo campeonato municipal, em 23 de outubro de 1939, com vitória de 2 X 1 sobre o Cruzeiro, na época a terceira força da capital gaúcha. O primeiro gol que marcou como profissional foi num jogo amistoso contra o Força e Luz, outro time de Porto Alegre já extinto, em 14 de dezembro daquele ano, com vitória do Internacional por 7 X 0.
O nome “Rolo Compressor” foi criado por um dos mais fanáticos torcedores colorados que existiram, Vicente Rao que ganhou fama nacional ao alegrar os carnavais de Porto Alegre como Rei Momo, num longo reinado de 22 anos, de 1950 a 1972. Foi jogador do Internacional na década de 20, fazendo parte do grupo que conquistou o primeiro campeonato gaúcho para o clube, em 1927. Foi ele quem criou as primeiras escolinhas de futebol do Internacional.
Vicente Rao nasceu em 4 de abril, data de aniversário do Internacional e gostava de dizer que não havia nascido, sim inaugurado. Exímio desenhista, fazia desenhos dos jogadores do time do Internacional em forma de um rolo compressor, amassando todos os adversários. Depois, levava essas charges para o seu amigo e também torcedor colorado, o jornalista Ari Lund que as publicava no jornal “Diário de Notícias”.
Também é dessa época o surgimento das grandes bandeiras e entradas do time em campo abaixo de foguetes, serpentinas e uma barulhada de sinos e sirenes. Por iniciativa de Rao surgiu nessa mesma década a primeira torcida organizada do Internacional e do Estado, denominada “Camisa 12”, que existe até hoje.
Em 1948 aconteceu um concurso nacional para escolha do “Melhoral dos Craques”, patrocinado pela “The Sydney Ross Company”, fabricante do famoso comprimido. A torcida do Internacional votou em peso no seu maior ídolo, e não deu outra, Tesourinha foi o vencedor com 3.888.440 votos e ganhou como prêmio um apartamento no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Uma outra prova do prestígio de Tesourinha foi durante seu casamento, em 1944: os torcedores do Internacional lotaram a igreja e as ruas próximas. Até a Brigada Militar teve de ser acionada para evitar um tumulto de proporções, tal a multidão que disputava espaço para ver o grande craque.
 Tesourinha foi hexacampeão gaúcho, aterrorizando zagueiros com seus dribles rápidos e uma velocidade memorável.
Vasco da Gama, 1950 a 1952
Ainda em 1949, o jogador teve o passe vendido ao Vasco da Gama por 300 contos de réis, quantia considerada uma fortuna na época. Estreou no clube carioca no dia 4 de janeiro de 1950, fazendo de falta um dos gols da vitória de 5 X 2 sobre a Portuguesa de Desportos, em jogo do Torneio Rio São Paulo. O craque gaúcho fez parte do lendário time apelidado de “Expresso da Vitória”. Tinha participação certa na Copa do Mundo de 1950, mas num jogo contra o Corinthians, no Pacaembu machucou um joelho e nunca mais conseguiu ficar bom totalmente.
No Rio, Tesourinha fez história no Vasco, e era titular absoluto da seleção que disputaria a Copa do Mundo de 1950, mas uma lesão no joelho o tirou do Mundial. No Rio, destacou-se também na Seleção Carioca, pela qual foi campeão brasileiro. No final de 1951, aos 30 anos, Tesourinha já era considerado um jogador veterano, principalmente devido ao problema crônico no joelho. Dispensado pelo Vasco, voltou a Porto Alegre e tentou jogar no Internacional, mas a direção preferiu não contratá-lo. Assim, surgiu a proposta do Grêmio.
Seleção Brasileira
A fama do habilidoso jogador ultrapassou as fronteiras do Sul e em 1944 foi convocado pelo treinador Flávio Costa para a Seleção Brasileira, que disputou a Copa Rio Branco. No jogo de estréia, no Estádio de São Januário contra a Seleção do Uruguai, em 15 de maio marcou um dos gols da goleada de 6 X 1. O ataque brasileiro nesse jogo formou com Tesourinha – Lelé – Isaias – Jair e Lima.
No Campeonato Sul-Americano de 1945, disputado no Chile e ganho pela Argentina, foi titular absoluto em todos os seis jogos da Seleção e craque da competição. Entre seus companheiros estavam alguns dos “cobras” de então: Ademir, Leônidas da Silva, Heleno de Freitas e Zizinho.
Em 1949, participou de nova edição do Sul-Americano de Seleções, disputado no Rio de Janeiro, quando fez 7 gols. O Brasil foi campeão e ele outra vez o melhor atleta. A seleção base do Brasil na competição foi esta: Barbosa – Augusto e Mauro – Eli – Danilo Alvim e Noronha – Tesourinha – Zizinho – Ademir – Jair e Simão.
Pela seleção foram 23 jogos e 10 gols. Era nome certo para a Copa do Mundo de 1950, no Brasil, mas acabou cortado pelo técnico Flávio Costa por causa de uma grave lesão nos meniscos.
Grêmio, 1949 a 1955
Em 1952 retornou ao futebol gaúcho. Queria jogar no Internacional, mas o presidente colorado Joaquim Difini não concordou. Foi então que o conselheiro gremista e jornalista, Aparício Viana e Silva lhe fez o convite para jogar no Grêmio, pois havia um grupo forte que queria acabar com o preconceito no clube. Tesourinha aceitou.
No dia da sua estréia, 16 de março de 1952, um amistoso com vitória de 5 X 3 sobre o Juventude, o vice-presidente tricolor, em Caxias do Sul.Tesourinha marcou dois gols na partida.
Tesourinha era um jogador consagrado, mas mesmo assim, sócios e dirigentes gremistas foram à imprensa, publicar uma nota contrária à contração de um jogador negro.
Tesourinha não ganhou títulos pelo Grêmio, mas sua maior vitória no clube foi ferir de morte o preconceito tricolor.
No dia da sua estreia no Grêmio, o vice presidente, Luis Assunção declarava para a imprensa: “Tesourinha acabou com o arianismo no Grêmio. É um abolicionista que o Vasco nos mandou”. Ficou vestindo a camisa tricolor até 1955.
Muito antes de Tesourinha
Em diversas fontes de pesquisas, é referenciado Tesourinha como sendo o primeiro atleta negro que jogou (1952) com a camiseta do Grêmio.  Por muitos anos gremistas e os próprios livros contaram assim esta passagem da história do Grêmio.  De forma muito oportuna chama-se atenção para a necessária retificação.
No próprio site do clube, no link curiosidades, consta que ao contrário do que se imagina, Osmar Fortes Barcelos, o “Tesourinha”, não foi o primeiro atleta de cor negra a vestir a camisa do Grêmio. Ele foi sim o primeiro atleta negro de destaque na era profissional em 1952. Antes dele, brilharam nomes como Antunes (1913/14), Adão (1926/35), Laxixa (1937/40), Mário Carioca, Hélio, Prego (anos 40) e Hermes (1948/50).
Despedida do futebol

O Grêmio fez sua festa de despedida do futebol, no jogo Grêmio e Corinthians, no estádio Olímpico, pouco antes de começar a partida, Tesourinha entrou em campo vestindo a camisa do Nacional e acompanhando de seis garotos vestidos com as camisas dos clubes que ele defendeu. Era o dia do Cronista. O craque respirou fundo tirou a camisa, as chuteiras e as meias, entregou tudo aos garotos e se encaminhou para o túnel chorando. Tesourinha saiu debaixo de aplausos e se transformava em uma das mais belas realidades do futebol brasileiro.
Estádio dos Eucaliptos
Aos 47 anos, 12 após encerrar a carreira de jogador de futebol, Tesourinha participou da partida amistosa de despedida do Estádio dos Eucaliptos, em 26 de março de 1969, quando o Internacional venceu o S.C. Rio Grande, de Rio Grande por 4 X 1, Tesourinha vestiu a camisa colorada pela última vez. Entrou apenas no segundo tempo, substituindo Bráulio. Ao final da partida, o craque retirou as redes de uma das goleiras do estádio para guardá-la como recordação.
Títulos
Campeonato Gaúcho – 1940 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1941 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1942 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1943 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1944 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1945 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1947 – Internacional
Campeonato Gaúcho – 1948 – Internacional
Campeonato Sul-Americano de seleções – 1949 – Brasil
Campeonato Carioca – 1950 – Vasco
Falecimento
O craque faleceu em 1979, aos 57 anos, vitimado por um câncer no estômago. A cidade onde nasceu não o esqueceu. Seu nome foi imortalizado no Ginásio de Esportes Osmar Forte Barcelos, popularmente chamado pelos porto-alegrenses, de “Tesourinha”. E foi um dos homenageados na coleção de livros em formato de bolso, “Esses Gaúchos”, que era adquirida junto com o jornal “Zero Hora”, em 1985.
A coleção também focou nomes ilustres da história riograndense como Getulio Vargas, Lupicinio Rodrigues, Fernando Apparício Brinkerhoff Torelly, o Barão de Itararé, João Goulart, Leonel Brizola, Elis Regina, Érico Veríssimo, Roberto Landell de Moura, Flores da Cunha, Teixeirinha, Simões Lopes Neto, Sepé Tiraju, Honório Lemes, Mário Quintana, Fernando Ferrari, Pinheiro Machado, Júlio de Castilho, Gildo de Freitas, Luis Carlos Prestes, Alceu Wamosy, Padre Reus, Silveira Martins, Oswaldo Aranha, Assis Brasil, Bento Gonçalves da Silva e Alvaro Moreyra, entre outros.
Confira um trecho do relato de Zero Hora no dia 18 de junho de 1979:
O fim de semana ficará marcado com tristeza na história do futebol. Osmar Fortes Barcellos, o maior craque gaúcho de todos os tempos, morreu na madrugada de ontem, vítima de câncer no aparelho digestivo.
O corpo de Tesourinha era sepultado no Cemitério João XXIII no mesmo instante em que no Estádio Olímpico se fazia um minuto de silêncio em homenagem ao craque.
Livros
Tesourinha – Internacional, Vasco, Grêmio, Seleção Do Brasil
Por Sérgio Endler
FONTES:
http://www.gremio.net/news/view.aspx?id=8328
http://www.museudosesportes.com.br
http://www.classicogrenal.com.br/
http://www.museudosesportes.com.br/noticia.php?id=4368
http://nilodiasreporter.blogspot.com/2008_05_09_archive.html
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/pgm/default.php?p_secao=77
http://ftt-futeboldetodosostempos.blogspot.com/2010/02/jogador-da-semana-tesourinha.html