Você saberia quem é Ada Hegerberg se ela não tivesse sido assediada?

Ada Hegerberg comemora a Bola de Ouro de melhor jogadora do mundo (Christophe Ena/AP)

Ada é craque e fez uma temporada espetacular como jogadora do Lyon, da França –atual campeão da Liga Francesa de Futebol Feminino e também da Liga dos Campeões. Ela foi artilheira em ambos os campeonatos. Marcou 31 gols no campeonato nacional (em apenas 20 partidas, fez as contas?) e 15 na Champions, um recorde.

Mas ela não ganhou hoje as páginas dos jornais, da internet, das redes sociais e até espaço em programas de TV por nada disso. Mas, sim, porque foi assediada pelo DJ francês Martin Solveig após receber seu prêmio. Depois do discurso de agradecimento da atleta, ele perguntou a ela se queria dançar o twerk no palco. Diante do riso solto do DJ, ela apenas balançou a cabeça em negação, lamentou, disse que não e se retirou do palco.

Para quem ainda não sabe o que é o twerk, trata-se de basicamente mexer quadris e bumbum, bastante semelhante ao que é feito no funk. Popular aqui no Brasil? Com certeza! A mulherada dança e se acaba? Absolutamente! E Ada poderia muito bem ter rebolado a bunda no palco da premiação da France Football SE FOSSE ISSO QUE ELA QUISESSE FAZER PARA COMEMORAR A GRANDE HONRA QUE TINHA ACABADO DE RECEBER.

Não que o mundo esteja preparado para isso. A cantora Miley Cyrus, em sua fase mais ousada e sexual, dançou bastante o twerk. Em um dos episódios, no palco de uma premiação da MTV, deixou famílias chocadas e virou alvo da hashtag #mileysasssmallerthan (a bunda de Miley é menor do que…), por meio da qual o mundo passou a discutir o tamanho de seu bumbum.

Eu acredito que o empoderamento feminino pode estar no rebolar da bunda –desde que isso faça a mulher feliz consigo mesma, orgulhosa e com sua autoestima intacta– e o mundo que aprenda a lidar com isso. Mesmo! Mas o empoderamento também pode estar num simples “não”, como o que Ada deu ao DJ francês –que não teve a brilhante ideia de perguntar ao croata Luka Modric, do Real Madrid, quando ele foi receber seu prêmio, se ele queria rebolar no palco.

Isso se chama machismo. Não passou pela cabeça de Martin que Luka pudesse querer dançar sensualmente no palco da premiação da France Football. Por quê? Esse tipo de crença está tão intrincada em todos nós que, muitas vezes, mal percebemos. Rimos. Era só uma piada. Não! Não era uma piada! Era a demonstração de que você acredita –mesmo sem nenhuma intenção de parecer cruel– que a mulher está ali, sim, para rebolar a bunda dela para você em qualquer ocasião e que não há problemas em sugerir isso publicamente.

Que você está diante da melhor jogadora do mundo, uma profissional talentosa, e que você a está olhando com sexualismo e vendo-a como um objeto.

Mas tudo isso está tão intrincado que Martin, na hora de se desculpar, se disse surpreso pela repercussão negativa com relação ao que disse. Mas como assim? Não quis ofender ninguém! Eu acredito em sua honestidade. E esse é o problema. Muita gente ainda acha que não tem que se preocupar com seus atos, com suas palavras. Com seu comportamento discriminatório. Porque a piadinha de Martin não foi só uma piadinha. Foi o que estragou a noite de Ada e foi também o que fez com que ela virasse notícia como vítima. E não como a craque que ela é. A melhor do mundo. A recordista em gols da Champions.

E o mais triste disso tudo é que não, você não saberia nada disso se ela não tivesse sido alvo de assédio no momento histórico em que estava sendo, finalmente, reconhecida por seu talento e profissionalismo. Foi como ela mesma disse, segundo antes, em seu belo e emocionado discurso de agradecimento: “Esse prêmio é um enorme passo para o futebol feminino. Meninas de todos os lugares do mundo: acreditem em vocês!”.

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